17/02/2007
- Congo - África
Mais um dia de calor infernal em Kinshasa! As pessoas vão e vêm, cada qual com seu modo de viver o momento presente, inclusive protegendo-se ou expondo-se ao mormaço que a certa altura do dia fica mesmo insuportável.
O colorido das roupas e o barulho dos carros e mistura-se ao grito desesperado e sufocado ao mesmo tempo de um povo apressado.
Eu, com os poucos dias que estou aqui, olhando tudo isso, só consigo fazer uma única e simplista pergunta: “Meu Deus, para onde vai toda essa gente quando chega a noite?E amanhã cedo, de onde voltará?”. E me entristeço, pois sei que não sou o único que só consegue fazer inúteis perguntas ou superficiais considerações. É assim que reagimos. Nada mais!
Mas será justo parar numa pergunta ou tecer alguma hipótese sobre o que não conhecemos direito? Com essa dúvida saí outro dia na rua e fiquei ainda mais confuso ao perceber que não se ouve reclamação ou lamento. Ninguém parece pedir nada a não ser uma oportunidade de ir e vir, com dignidade de quem sai buscar e volta com o pão assegurado na valentia e na raça!
É assim o povo de Kinshasa. Livre no seu sofrimento e no seu atraso. Independente para carregar a cruz de cada dia sem comparar sua vida com a de ninguém, nem sentir-se culpado da sua incapacidade de ser evoluído.
Mas é também uma gente teimosa, forte e provocadora. Sua arma mais forte e a supreendente capacidade de causar indignação nos estrangeiro, pois conseguem colocar-se totalmente acima da nossa compreensão justamente por não se importar com a presença alheia e nem perguntar que direito temos nós de sermos mais ricos ou desenvolvidos. Isto porque na sua simplicidade talvez já tenha, por um outro caminho, inacessível para os de outro sangue, chegar muito mais longe do que nós...!
Diante disso percebi que a sensação de insegurança humana e pessoal que sentimos ou vivemos quando estamos numa terra diferente da nossa, torna-se na verdade uma grande aliada na descoberta de novos rumos.
Quando a estrada torna-se monótona e a paisagem da vida fica muito igual, tanto que a cada manhã parece não termos saido do lugar e ao anoitecer um vazio arde no peito para avisar que não fizemos nenhum progresso em relação ao dia anterior, é muito bom e oportuno poder sair pelas ruas de Kinshasa ou de outras paisagens do mundo sofrido. Mas melhor ainda é não saber ou não ter o que dizer e nem explicação a dar, pois quando mais queremos explicar ou convencer os outros, é porque menos sabemos ou nenhuma resposta temos.
O povo que vai e vem aqui em Kinshasa ou em qualquer outra parte do mundo, clama aos céus e Deus, devolve através de um eco forte e claro o lamento desses irmãos e irmãs, que não escolheram e nem foram escolhidos por essa vida. É impossível fingir que não escutamos ou não vemos tantas evidências. A globalização aproximou não só as pessoas, mas também seu sofrimento.
Diante disso, claro, o melhor mesmo é agir com indiferença. E essa é a pior escolha que podemos fazer. Trata-se de um venêno pestilento e mortal, com efeitos devastadores, pois começa agindo num lugar inacessível para qualquer remédio ou antídoto: a alma e a consciência.
Por incrível que pareça, nenhuma cura chega nesse lugar. Só mesmo essa doença. E nem a graça de Deus pode fazer nada por uma alma doente do mal da inferença, pois o primeiro sintoma dessa peste é justamente não perceber que se está doente ou precisando de ajuda.
Então, é correto afirmar que estamos todos doentes desse mal, pois vivemos tão preocupados em curtir o momento presente ou fascinados conosco mesmo que não conseguimos passar do estágio da compaixão e da afirmação de que não podemos fazer nada. Somos homens e mulheres que por acreditarmos não termos sidos nós os responsáveis por essa desgraça alheia, também não cabe a nós qualquer preocupação por seu seu resgate.
Outro dia, no blog do site www.vinde.org.br perguntei aos jovens e às pessoas em geral, sobre o que poderiamos fazer pela situação do Congo ou das pessoas empobrecidas e exploradas, não importa de onde. A participação foi mínima, mas as respostas muito boas. Pois foram pessoas engajadas na comunidde que responderam. Então, concluí que somente a quem já esta empenhado numa frente de batalha, pode-se fazer um convite para outra guerra.
Não julgo, não condeno e nem me surpreendo. A essa altura é bom saber que a África, o Brasil e tanto outros refúgios de excluídos, não precisam de salvadores ou heróis libertadores. Só de irmãos! Afinal, a fraternidade é, ainda, o único remédio para esse maldito mal chamado indiferença.
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Pe. Edmilson Mendes
Religioso Cavanis em missão na cidade de
Kinshasa, Congo, África
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